Fotografias QUASE deserdadas
- Leandro Cagiano
- 26 de mai.
- 2 min de leitura
Fotografias esquecidas, imagens quase descartadas e aquilo que
elas podem revelar sobre a forma como observamos o mundo.
Tem imagens que parecem não dizer nada à primeira vista. Talvez seja exatamente por isso que permaneçam.
Durante muito tempo imaginei que fotografar era uma tentativa de encontrar aquilo que parecia importante.
Grandes paisagens. Momentos decisivos. Situações que imediatamente chamavam atenção.
Talvez exista algo intuitivo nisso. Quando estamos diante de uma cena, procuramos aquilo que acreditamos ser o centro: a ação, o personagem, o acontecimento. Todo o resto parece ocupar uma região secundária da imagem.
Mas algumas fotografias têm um comportamento estranho.

"fotografias que sobreviveram ao desaparecimento"
O pesquisador e curador Rubens Fernandes Junior desenvolve um trabalho em torno das chamadas fotografias deserdadas: imagens encontradas em feiras, descartes e arquivos abandonados. Fotografias que perderam seus donos, suas histórias e muitas vezes qualquer possibilidade de saber quem esteve diante da câmera.
De certa forma, são imagens que sobreviveram ao desaparecimento.
Elas perderam contexto, perderam nomes, perderam suas histórias originais, mas ainda permanecem carregando algo que insiste em existir.
Sempre achei interessante a pergunta que parece existir por trás desse trabalho: o que ainda permanece em uma imagem quando tudo o que a organizava desaparece?
Recentemente, ao revisar fotografias produzidas ao longo de muitos anos em estuários e manguezais, comecei a perceber algo estranho: fotografias "quase" deserdadas.

Algumas das imagens que mais me interessavam hoje eram justamente aquelas que, no momento em que foram feitas, quase não receberam atenção.
Não eram grandes paisagens.
Não eram acontecimentos extraordinários.
Eram superfícies.
Rastros.
Reflexos.
Pequenas transformações.
Imagens que pareciam acontecer nas bordas daquilo que eu acreditava estar fotografando.
Talvez algo semelhante aconteça fora da fotografia.

Passamos grande parte do tempo olhando para aquilo que parece central: metas, velocidade, resultados, grandes acontecimentos. Enquanto isso, relações mais silenciosas seguem acontecendo ao redor: movimentos pequenos, ciclos, transformações lentas e dependências que sustentam aquilo que chamamos de cotidiano.

Talvez nossa relação com o ambiente também tenha passado por algo parecido.
Talvez não tenha desaparecido completamente.

Talvez apenas tenha sido deslocada para as margens do nosso olhar.


Talvez certas coisas não deixem de existir.


Talvez nós apenas deixemos de percebê-las.
Talvez.




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